30.6.09

On Chesil Beach | | Ian McEwan

This is how the entire course of a life can be changed - by doing nothing.





Obrigada, M.

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19.6.09

Venho duma província perto de Shanghai.
Vim para a capital, porque aqui ganha-se mais dinheiro.
Também trabalho Sábados e Domingos, enquanto o meu marido fica em casa, no computador.
Ele não faz mais nada.

Quer dizer, quando arranja biscates, principalmente, na construção, trabalha que nem um louco e é capaz de ficar dois ou três dias sem dormir.

Mas, de resto, passa o tempo em casa, em jogos de computador ou no mahjong, com os amigos.
É uma pessoa que não gosta de viajar, de ir ali, ver isto, ver aquilo.

Ainda para mais, agora, que a mãe dele vive connosco, por motivos de saúde, e ainda vai ajudando lá em casa.
Eu ajudo-a a pagar as despesas do hospital e dos medicamentos.
Ela diz-me que eu sou uma nora muito boa, que não sou como as outras.


Há quase dois anos tive o filho número dois. Uma menina.
O primeiro, um rapaz, já tem quase dez anos.
Sei que o Governo, nalguns locais do país, nos deixa ter o segundo filho, se o primeiro for do sexo feminino.

Não foi o meu caso.
Mas eu sou filha única!
Além disso, o meu primeiro filho foi registado com o meu apelido, o que poderá facilitar o registo da minha menina, quando ela tiver idade para ir para a creche.

Eu só aceitei ter um segundo filho, porque a minha mãe finalmente concordou em tomar conta dos dois, na minha terra, enquanto eu e o meu marido ganhamos a vida em Pequim.
Também resolvi engravidar pela segunda vez, porque o meu marido insistiu.
A família dele é bastante grande, e só um dos irmãos é que tem apenas um filho, porque a mulher tem problemas na cabeça.
Os outros irmãos têm três ou mais filhos.

Antes desta segunda gravidez, fiz dois abortos, com os quais o meu marido nunca concordou.
Disse-me que, caso não tivéssemos outro filho, pediria o divórcio.

Não tive outro remédio.

Engravidei, mas como não se pode saber o sexo da criança antes da nascença, disse para mim mesma que, caso fosse outro rapaz, nunca iria gostar dele.
Os rapazes só dão trabalho!
Além disso, tem que se lhes preparar o futuro e comprar-lhes uma casa.
Senão, qual é a rapariga que se quererá casar com eles? Abandonar a casa dos seus pais para se mudar com um "sem-abrigo"?

Sim, é verdade que há histórias de mulheres grávidas pela segunda vez que são denunciadas por vizinhos ou por conhecidos à polícia, só porque ganham algum dinheiro com isso. E que aquelas desaparecem por uns dias, para reaparecerem sem barriga e sem bebé.
Mas isso é coisa de gente ruim.
Na minha terra, isso nunca se passaria!

Até porque eu tive a minha filha em Pequim, longe de onde venho.

Falo com ela ao telefone e visito os meus filhos duas vezes ao ano, se der.
Porque agora, os feriados oficias estão mais curtos e quase não me compensa fazer a viagem de comboio.
Só para chegar a casa, demoro um dia inteiro.
Ir de avião sai muito caro!

Não vi a menina a dar os primeiros passos e estranhou-me a primeira vez que a reencontrei.
Mas ela agora sabe quem eu sou e chama-me "Mãe".

Vou poder ir viajar quando ambos forem mais crescidos...

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10.6.09

You were looking for the key for years/ But the door was always open!

Then white people use cell phones too much, and that is destroying their brains. It's a known fact. Cell phones cause cancer in the brain and shrink your masculinity; the Japanese invented them to diminish the white man's brain and balls at the same time. I overheard this at the bus stand one night. Until then I had been very proud of my Nokia, showing it all the call-center girls I was hoping to dip my beak into, but I threw it away at once. Every call that you make to me, you have to make it on a landline. It hurts my business, but my brain is too important, sir; it's all that a thinking man has in this world.
White men will be finished within my lifetime. There are blacks and reds, too, but I have no idea what they're up to - the radio never talks about them. My humble predicition: in twenty years' time, it will be just us yellow men and brown men at the top of the pyramid, and we'll rule the whole world.
And God save everyone else.

The White Tiger, Aravind Adiga

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1.6.09

29

É assim, cada vez mais, que me sinto...

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11.5.09

E depois... | | A luta

Às vezes, há vezes em que me apetece uma banheira.

Quantas vezes, não me passa pela cabeça ir dormir a um hotel, só por uma noite, para me poder deliciar com um banho de banheira e de cabeça!

Imaginar as minhas pernas, cansadas, habituarem-se àquela água, demasiado quente, arrepiar-me com esse escaldar de pele, submergir-me naquele silêncio submarino, profundo, compassado ao meu respirar, as veias, dilatando-se, pulsando não só nos pulsos, nas pernas cansadas, que agora descansam...

 Em paz!



Não suportar aquele calor que me tapa todos os poros, sentir a pressão descer, descer, quase desistir, querer respirar por todos os poros, emergir, e sentir o novo arrepio do choque térmico, metade de mim, a telintar, a outra metade, em pleno inferno, ligar a torneira de água fria ou esperar um pouco mais, que a água, esse quase óptimo condutor térmico, arrefeça...




Submergir, de novo...
Ouvir, novamente...

Pensar que não se pensa...
Pensar como não é possível não se pensar em nada, de facto.

Mesmo de olhos fechados.
Mesmo somente com o silêncio de nós mesmos, que não é possível.




Afinal, é só uma banheira.
É só imaginação.

Imaginação que quase posso dizer verdadeira, tocável.

Verdade de sentir o vazio, o frio, o calor, o silêncio, a pressão, desaparecendo.
Ressurgindo, nesse pensar constante.






Puxar a tampa...
Ouvir o ecoar dos canos...

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7.5.09

Mezinha | | O Perfume | | 30 segundos, no máximo

às vezes
cheira a praia

um centésimo de segundo de felicidade
repentino, inesperado

que

às vezes


proloooooongooo0000OOO

......................+++\

.......... . ;;; *

(( +` ::: ?


quando passo ali no móvel da cozinha
e puxo o creme nivea tailandês de detrás dos medicamentos, da cera de chá-verde, dos champôs de providência, dos sabonetes mal-cheirosos que compro pela embalagem


rodo-lhe a tampa e seguro-a na mão esquerda

chego o gargalo ao nariz sedento

aperto ligeiramente a garrafa, deixando-a expirar

absorvo aquele dióxido de carbono por dois segundos e três centésimos

ao mesmo tempo que
fecho os olhos, reclino o pescoço para trás, puxando aquele odor um pouco mais, na tentativa de o

e
S
t
i
c
A
r

e de o fazer chegar a todos os lados de mim

.............
\
*—--_
\
..................
\
........;..;::


abro os olhos


...................*\_._;--


Ó:Ò

--:::::...+/....................

movo a mão esquerda em direcção ao gargalo

recoloco a tampa

carrego-lhe, ao de leve, até que dê um estalo

empurro a embalagem para detrás da tralha que acumulo naquelas prateleiras

apago a luz

e volto à vida

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6.5.09

Hierarquias = Prioridades | | (?) | | Santa terrinha

Será que vi mal? Será que a minha memória de peixe se enganou?

Será que no quase rodapé do Público, a ordem dos itens mudou, passando a Política (Nacional) à frente do Mundo? 
O Desporto, logo de seguida, à frente da Cultura (que passou lá bem para mais baixo!)?

Dantes não era?:

Mundo-Política
Cultura-Desporto
Educação-Ciências
Economia-Sociedade
Local-Tecnologias
Media
 
???

(ou muito me engano?)

Ah, e já que estou neste direito-de-antena temático, sempre me questionei sobre a oportunidade dum suplemento (também na versão on-line) apelidado de "Cargas e Transportes"... 
(Faz-me, de certo modo, e não sei muito bem porquê, lembrar os Sopranos...)

Há coisas positivas, apesar...
O Ípsilon, que está acessível num espaço próprio (e sem o clix lá no meio!).
Alguns blogs convidados... Entre eles, este (que obviamente refere Vasco Granja, de quem lembro muito pouco, além da voz e da imagem. É pena!).

É o único jornal português on-line que acompanho, e cada vez me desilude mais!

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Sim!



© Rafaela Teves

A minha primeira vez num casamento local foi estranha.

Chega-se a um restaurante de pato à Pequim quase à hora do pequeno-almoço, assina-se o nosso nome chinês, demasiado complicado de se assinar para nos lembrarmos de todos os traços àquela hora da manhã, a dourado, num rolo vermelho, ouve-se uma mestra de cerimónias a esguichar entusiasmos, vem o patrão do Beijing Guoan F.C. fazer o papel do governo e entregar os certificados de casamento ao casal (que já tinha contraído matrimónio o ano passado!), vem mais alguém que representa não sei bem o quê falar, falam também os pais dos respectivos, a dama-de-honor sempre ali ao lado, para além da mestra de cerimónias, a "desmanchar" quase todas as fotografias dos noivos (espera, afinal as fotos dos noivos, só os dois, são numa sessão à parte, num dia à parte, entre o casamento "real" e a festa de hoje...), e depois...

Depois vem a parte em que o noivo se "esquece" das alianças e as vai buscar a uma sala mais recôndita e regressa com um ramo (ramo?!) de quatrocentas e tal rosas vermelhas (quatrocentas?! e tal?!) e, é assim, que sem pedir, fico derretida e emocionada e já não vejo bem, algo ali ficou desfocado pelo meio...

Mas ainda não chega!

Vem ainda a outra parte em que os quatro pais dos respectivos se sentam lado-a-lado.
O noivo encara os sogros e a noiva, os dela.
Há uma menina que carrega um tabuleiro com quatro metafóricas chávenas de chá.

O noivo chama: "Pai!" e o sogro responde: "Sim!".
- "Pai, beba este chá!", e o sogro bebe.
A mestra de cerimónias pergunta, então: "Senhor, este chá... É doce ou é amargo?"
E o sogro responde: "É doce!"
"É doce! É doce!", foi a resposta de todos, até que se chega à mãe do noivo.
Repete-se a lengalenga.
A noiva: "Mãe!"
- "Sim!", responde o outro lado.
- "Beba este chá!", convida a nora.
E a mestra de cerimónias volta à carga: "E este chá, diga-me lá, é doce ou é amargo?"
E responde a senhora:
"É EXTREMAMENTE doce!"

Pronto! Tudo turvo outra vez!

É, dizem-me, a partir deste momento que os noivos são aceites nas suas famílias de sogros e em que lhes é permitido chamar "pai" ou "mãe" aos pais da sua mulher ou do seu homem...
Mas tudo isto rapidamente passa.

Os pais/sogros entregam o 红包 aos noivos (hongbao - literalmente, "envelope vermelho", que é costume dar-se em ocasiões especiais - casamentos, nascimentos, no Ano Novo Chinês -, e que, como o nome indica, são envelopes vermelhos com frases escritas a dourado, adequadas à ocasião, com dinheiro oferecido no seu interior. Os envelopes que entregámos, além de "Love Forever", tinham inscrito 百年好合 - bainian haohe -, que significa "cem anos de união harmoniosa", mais coisa menos coisa).

Depois já não sei muito bem a sequência dos acontecimentos, tal era a fome...
Se o lançar do ramalhete foi a seguir, ainda com a noiva a vestir o primeiro vestido de casamento, véu e tudo, tudo branco, à moda ocidental, se foi já depois com o segundo, vermelho, mas ainda de corte moderno. Já não sei precisar.
Entretanto, comeu-se.

Comeram-se todas as partes possíveis e imaginárias que um pato porventura tem, que me absterei de enumerar.
Vieram os pais dos noivos brindar a cada mesa.
Vieram os noivos, com aguardente chinesa, brindar também. A noiva já de 旗袍 (qipao, vestido "tradicional" chinês) vermelho.
Veio a mestra de cerimónias a cada mesa pedir um testemunho sobre os noivos, gravado para a posteridade em vídeo.
Veio a fruta!
E isso, meus amigos, isso é quase o final.
Quando vem a fruta...
Não há muito mais a dizer.

Só a despedida aos noivos (que nunca vi comer), conjuntamente com o nosso envelope vermelho, com a nossa comparticipação e com a assinatura devida, para que eles nunca se esqueçam que lá estivémos e o (com) quanto participámos.
Pragmatismo chinês, retirado de hipocrisias.

E ora aí está!
Para mim, ainda nem horas de almoçar eram, e já regressava a casa para a sesta...

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